23 de junho de 2026
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Brasil já perde espaço para os EUA em vendas de soja para a China

Para analistas, compradores chineses acertaram negócios com os americanos para pressionar as cotações no mercado brasileiro

Por Redação··4 min de leitura
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Pouco mais de um mês depois da reunião de cúpula entre os presidentes da China, Xi Jinping, e dos Estados Unidos, Donald Trump, os americanos revelaram que os chineses fizeram as primeiras compras de soja dos EUA da nova safra, um anúncio que os produtores americanos aguardavam com grande expectativa. Agora, os EUA entram de vez na disputa com o Brasil para abastecer o mercado chinês, o que pode mudar a dinâmica de preços no país.

Na semana passada, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) anunciou que o país vendeu à China 132 mil toneladas de soja do ciclo 2026/27 — a colheita do grão da nova temporada americana começará em setembro. O órgão informou ainda que exportadores dos EUA negociaram outras 384 mil toneladas para destinos não revelados, que muitos analistas acreditam ser também a China.

Para analistas, as compras são um desdobramento do encontro de maio. Na ocasião, Trump disse que a China havia se comprometido a importar ao menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas dos EUA em 2026, 2027 e 2028 — os chineses não se manifestaram. Essas cifras não incluiriam as 25 milhões de toneladas de soja que, de acordo com declaração do governo americano de outubro de 2025, os chineses haviam dito que importariam.

Estratégia chinesa para pressionar preços

Para Ronaldo Fernandes, analista da consultoria Royal Rural, as novas compras chinesas não têm relação com um alegado compromisso com os EUA, e sim com a estratégia de mercado que a China vem adotando nas negociações do grão. Segundo ele, o país tenta reduzir o preço da soja brasileira.

“Compradores chineses alegam que a soja do Brasil está cara, mas não é essa a explicação. A nossa soja está sendo negociada por US$ 530 a tonelada, e a americana, por US$ 545. A China está usando esse argumento para tentar derrubar os preços no Brasil e, então, voltar a comprar nosso grão”, disse Fernandes.

A decisão chinesa de negociar a soja dos Estados Unidos pode surtir o efeito esperado. Com o aumento da demanda pela oleaginosa dos EUA, explica, a tendência é que os preços do grão subam na bolsa de Chicago, o que normalmente reduz os prêmios de exportação nos portos do Brasil. A consequência disso é o declínio dos valores no mercado interno brasileiro.

No momento, com a demanda aquecida, a perspectiva é de preços firmes no Brasil. As cotações no exterior, por sua vez, tendem a seguir em queda em razão da expectativa com a oferta americana e da procura ainda retraída, à espera da China.

Ontem, o indicador Cepea/Esalq caiu 0,02%, a R$ 132,81 a saca. Na bolsa de Chicago, os papéis da soja para julho recuaram 0,62%, a US$ 11,1575 o bushel.

Embarques e perspectivas para 2026/27

Segundo cálculos da Royal, apenas em junho, o Brasil deverá exportar 15 milhões de toneladas de soja, sendo 10,7 milhões de toneladas para a China. Para o mês que vem, já há programação de embarques de 4 milhões de toneladas. Metade deve seguir ao mercado chinês.

Historicamente, as exportações brasileiras se desaceleram a partir de julho, mas, com a colheita recorde nas duas últimas safras, o volume deve ficar acima da média para o mês nos últimos cinco anos, de 9,8 milhões de toneladas, estima a Royal Rural.

Já as vendas de soja dos EUA à China até junho devem se aproximar de 12 milhões de toneladas. O volume está em linha com a expectativa da Casa Branca para as negociações em 2025/26.

É possível que os embarques americanos alcancem 25 milhões de toneladas na safra 2026/27, como espera Trump, desde que a negociação seja favorável à China, afirma Ale Delara, diretor da Delara Agronegócios. “Há uma boa chance de essas compras se concretizarem, mas não na janela ideal para os americanos, que vai de setembro a dezembro”, avalia.

Para ele, a China deve primeiro esperar que haja sinalização de ampliação de área nos EUA. Isso indicaria aumento de oferta e também de estoques, o que pressionaria as cotações. “Só então eles [chineses] direcionariam mais demanda aos americanos”, afirma. Ainda que o Brasil perca negócios, Delara não acredita que os prêmios de soja no Brasil terão queda forte.

Fonte: Globo Rural.

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